// Análise Cultural: Classics… but make it gay” – Arte Clássica para Todos.
06-02-2022, Ana Rita Resina Cruz (analista convidada/estudante de licenciatura).

                                                                                                                   Imagem da conta de Nova e Mali, Instagram.

“Classics… but make it gay” é um projeto colaborativo de arte digital criado por Nova e Mali, juntamente com a participação de vários artistas online, onde peças de arte clássicas ou de movimentos com inspiração clássica são recriadas de forma a serem inclusivas. O projeto começou em 6 de abril de 2021, com o primeiro volume contendo mais de 60 ilustrações de artistas de várias partes do mundo, e em 29 de setembro o casal anunciou o início de um segundo volume. Através da informação num thread do Twitter sobre as inscrições para este novo volume, o casal revela um claro esforço por reunir uma equipa mais diversificada num contributo para uma discussão mais alargada numa perspetiva contemporânea. É mais um objeto num grande movimento para analisar criticamente as nossas memórias e questões de hegemonia.

Leitura Semiótica – Como signos denotativos temos [1] as peças selecionadas para serem recriadas; [2] as recriações dessas peças ; [3] os artistas responsáveis por estas recriações; [4] o livro (físico e PDF) que compilará estas recriações.
A leitura conotativa de cada um destes signos pode ser a seguinte: [1] a cultura erudita; [2] um desafio e uma insatisfação para com a cultura erudita; [3] as pessoas “comuns” que avançam para representar uma insatisfação com a cultura erudita; [4] uma galeria de arte a que todos podem ter acesso.
Como um todo, a leitura conotativa é uma em que qualquer um pode recriar uma peça e que esta pode pertencer a múltiplos públicos. Esta última parte da leitura conotativa merece um pouco de mais atenção: a arte e a história ganham novas representações através dos próprios artistas que a recriam; estas recriações passam a representar pessoas que antes não se viam refletidas em obras canónicas. Aliás, importa sublinhar uma longa plasticidade histórica já presente de reinterpretação que aqui encontra mais um sinal nos nossos dias.

Leitura do ADN Cool – Relevante: O projeto está em sintonia com uma atual maior consciencialização da importância e relevância da diversidade a nível das identidades de género, raciais e de orientação sexual e como esta está muitas vezes ausente nos documentos históricos considerados canónicos.
Viral: O sinal tem a capacidade de se propagar, pois, através das recriações presentes, outros artistas podem sentir-se compelidos a participarem no desafio e a também criarem as suas próprias reinterpretações dos “clássicos” (sejam outros ou os mesmos do zine). Cada uma destas novas reinterpretações trará consigo a experiência pessoal dos artistas com a sua identidade, na qual outros se podem refletir e assim também sentir-se incentivados a participarem neste processo de recriação. Este é um movimento antigo mas que ganha novos sentido em sintonia com as mentalidades emergentes atuais. Este objeto não só pode sublinhar projetos anteriores, como dar origem a novos.
Atual e Irreverente: A atualidade deste signo reside no facto de abordar uma questão muito relevante na atualidade: a representação de comunidades minoritárias. Apesar de se terem verificados muitos avanços, a representação destes indivíduos é ainda bastante escassa. Projetos como “Classics… but make it gay” surgem como uma resposta à insatisfação destas identidades que apenas desejam ser vistas e aceites. Neste caso, a resposta é dada através de um desafio crítico ao “clássico” e de uma “apropriação” da cultura erudita, modificando-a de forma a representar as novos grupos perspetivas. Na verdade, no seu primeiro post sobre este projeto, Nova e Mali descreveram-no como “making the art history we deserved”.
Instigante e uma Proposta de Descontinuidade: “Classics… but make it gay” instiga a que as pessoas olhem para peças clássicas com uma perspetiva crítica diferente: que identidades estão aqui representadas e porque não estão outras? A resposta a esta pergunta torna as pessoas mais sensíveis à falta de diversidade nestas peças de arte. Com isto há uma nova descontinuidade com o elogio das peças de arte clássica; o valor destas ainda é reconhecido, mas são criticadas pelo facto de representarem apenas um pequeno grupo homogéneo. Os clássicos passam a existir não para serem idolatrados, mas com um potencial de readaptação. Por fim, o zine apela a que as pessoas recriem elas próprias os clássicos e criem a história desejam ver.

Estilos de Vida – Há uma ligação a artistas. Esta, no entanto, não é exclusiva, incluindo através das recriações de membros da comunidade LGBTQAI+ e de outras etnias, independentemente da sua aptidão artística. Devido aos temas recriados, deteta-se também uma ligação com amantes de história de arte. As imagens presentes apelam a uma maior inclusividade.

Inovação e Fórmula Cultural – A narrativa é construída a partir das peças selecionadas e os elementos utilizados para as reconstruir – mulheres e homens negros e de outras raças, pessoas transgénero, casais homossexuais e por vezes inter-raciais, etc. Com exceção de representar indivíduos mais diversificados, as recriações não fogem à estrutura dos clássicos selecionados, fortalecendo a associação destas novas peças de arte ao estatuto atribuído àquelas que estão a “imitar”.

Insights Estratégicos – Os artistas têm desempenhando um papel cada vez mais importante na representação de comunidades relegadas para outros planos. É importante ver como estes trabalham para desafiar esta falta de representação e diversidade e em que outros contextos isto acontece (ver fenómenos como o Blacktober). As empresas devem observar e estudar estas práticas de forma a compreender os interesses e as necessidades destas comunidades e apresentar-se como fornecedoras.

Tendências Socioculturais – É possível identificar uma ligação entre este sinal e as macrotendências das Identidades Protagonistas e das Narrativas Ancoradas, através de uma recriação e personalização tanto mimética como criativa de elementos sólidos do passado – as peças de arte clássica –, ligando este com a experiência individual.

 

Processo de análise:

Gomes, Nelson P. e William A. Cantú (2021). “Cultural Mediations Between Branding and Lifestyles: A Case Study Based Model for the Articulation of Cultural Strategies and Urban Tribes” in R. Goonetilleke et al. (eds.) Advances in Physical, Social & Occupational Ergonomics. Switzerland: Springer.

Outras referências a considerar
Gomes, N.P., C.A. Lopes, W.A. Cantú, G. Prado (2021). “Análise Estratégica de Tendências Socioculturais: uma triangulação de métodos científicos” in DAT Journal, v.6, nº1, 213-228.
Holt, D., Cameron, D. (2010): Cultural Strategy – Using Innovative Ideologies to Build Breakthrough Brands. Oxford: Oxford Press.
Dragt, E. (2018). How to Research Trends: Workbook. BIS Publishers, Amsterdam.
Rohde, C. (2011). “Serious Trendwatching”. Fontys University of Applied Sciences and Science of the Time, Tilburg.
Barthes, R. (1986). Elements of Semiology. Hill and Wand, New York.
Barthes, R.(1991). Mythologies. Noonday, New York.
Cova,B., Cova,V.(2002). “Tribal Marketing: The tribalization of society and its impact on the conduct of marketing” in Eur. J. Mark., 36(5/6), 595–620.
Lipovetsky, G, Charles, S. (2011). Os Tempos Hipermodernos. Edições 70, Lisboa.

 


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